Documento familiar · memória genealógica
Os registros oficiais nos dizem que Maria Escolástica de Freitas nasceu em Ouro Preto, em 10 de fevereiro de 1899, filha de Antônio Luis de Freitas e Anna Ribeiro de Freitas. Em 1918, já em Rio Espera, casou-se com Caetano Antunes Nogueira.
Mas os documentos preservados por sua família permitem conhecer algo que certidões de nascimento e casamento raramente conseguem registrar: a sua própria voz.
Em duas pequenas folhas manuscritas, separadas por treze anos, Dona Zica registrou dois momentos marcantes da vida de seu filho José. Em janeiro de 1936, anotou sua partida para Congonhas do Campo, onde seguiria a formação religiosa. Em fevereiro de 1949, voltou ao papel para registrar a alegria de vê-lo ordenado sacerdote.
Entre essas duas páginas encontra-se não apenas um episódio da história de uma família de Rio Espera, mas o testemunho pessoal de uma mulher cuja memória chegou até nós em sua própria letra.
Primeira versão documental: 26 de setembro de 2026.
Nota editorial
Esta página existia no antigo Portal em forma resumida e foi reconstruída e ampliada em 2026 a partir do conteúdo anteriormente preservado, de documentos históricos, fotografias e filmes do arquivo familiar de Maria Escolástica de Freitas Nogueira.
Nas transcrições diplomáticas, procurou-se conservar a grafia, a capitalização e as construções empregadas nos manuscritos, sem modernizá-las silenciosamente. Trechos cuja leitura não pôde ser estabelecida com segurança são indicados por [ilegível]. As identificações de fotografias provenientes do arquivo familiar são apresentadas conforme as informações preservadas pelos descendentes e, quando ainda não confirmadas individualmente, isso é indicado na legenda.
1882
Antes de Dona Zica — o casamento de seus pais
Em 15 de novembro de 1882, casaram-se Antônio Luiz de Freitas Sobrinho e Anna Ribeiro da Natividade, pais de Maria Escolástica.
O documento também mostra como os nomes podiam variar ao longo do tempo. Antes do casamento, sua mãe aparece como Anna Ribeiro da Natividade; no registro de nascimento da filha, anos depois, aparece como Anna Ribeiro de Freitas. Essas variações são comuns em documentos históricos e lembram que os sobrenomes nem sempre eram utilizados de maneira tão fixa quanto nos registros contemporâneos.
1899
Maria Escolástica nasce em Ouro Preto
Maria Escolástica de Freitas nasceu em 10 de fevereiro de 1899, em Ouro Preto, Minas Gerais. Seu registro de nascimento informa que veio ao mundo às onze horas da manhã, na residência da família, na Rua Barão do Ouro Branco, no segundo subdistrito de Ouro Preto. O nascimento foi declarado no dia seguinte por seu pai.
O documento identifica seus pais como Antônio Luis de Freitas e Anna Ribeiro de Freitas, e registra também os quatro avós:
Pelo lado paterno:
Manoel Francisco de Freitas e Ritta Honória de Cássia.
Pelo lado materno:
Francisco José Ribeiro e Luiza Maria de São José.
1918
De Ouro Preto a Rio Espera
Em 18 de setembro de 1918, Maria Escolástica de Freitas casou-se com Caetano Antunes Nogueira, na Matriz de Rio Espera. O assento paroquial original do casamento sobreviveu entre os documentos preservados.
Aos dezoito dias do mez de Setembro do anno de mil novecentos e dezoito...
Maria Escolástica tinha 19 anos e Caetano, 20. Entre as testemunhas aparecem Jacob Antunes Nogueira e José Ribeiro de Freitas. O registro informa ainda que o casal recebeu a bênção nupcial durante a missa no dia seguinte.
Pelo casamento com Caetano, a trajetória de Dona Zica passa a se cruzar com famílias que aparecem repetidamente na documentação histórica de Rio Espera, entre elas os Nogueira, Dias Lopes e Rodrigues de Miranda.
20 de janeiro de 1936
“José segue para Congonhas”
Entre os documentos preservados pela família encontra-se uma pequena folha manuscrita por Dona Zica. Nela, Maria Escolástica registra a partida de seu filho José para Congonhas do Campo, onde seguiria a formação religiosa.
Transcrição diplomática — escrita principal
dia 20 de Janeiro de 1936
que José Segue para Congonhas
do Campo afim de estudar para
missionario Redentorista
segunda feira. Eu entrego
para a minha Mãe Maria
Santissima, guardae O minha
Mãe Sobre vossa proteção
amem
A anotação registra uma decisão familiar concreta — a partida de José — e imediatamente se transforma em oração. Maria Escolástica entrega o filho à proteção de Maria Santíssima.
Uma oração pelos filhos — tinta azul
A escrita em tinta azul está mais apagada e possui trechos de leitura difícil. A transcrição abaixo mantém as incertezas em vez de completar palavras por conjectura.
fiel aos divinos manda-
mentos, e vos peço O! terna
mãe a proteção pra todos os
meus filhos guardae sobre
proteção até a morte faz[ilegível]
[ilegível]
nos todo[s] [ilegível]
o meu espozo possamo[ilegível]
eternamente divinos [ilegível]
Mesmo com lacunas, o sentido geral é significativo: a oração não se limita ao filho que parte para Congonhas. Dona Zica pede proteção para todos os filhos e menciona também “o meu espozo”. A pequena folha preserva, assim, uma oração pela família.
1941
Uma família em Rio Espera
A fotografia insere as duas páginas manuscritas em algo maior: a vida de uma família numerosa. A identificação individual dos retratados será documentada progressivamente à medida que as informações familiares forem confirmadas.
1947
Congonhas na memória familiar
Entre as fotografias preservadas há também imagens identificadas como uma viagem a Congonhas em 1947.
2 de fevereiro de 1949
“Quanto me sinto feliz de ser Mãe de um sacerdote”
Treze anos depois da anotação de 1936, Dona Zica voltou ao papel. Desta vez, registrou a ordenação de seu filho José e a maneira como viveu aquele momento.
Transcrição diplomática
2 de Fevereiro de 1949
dia da Ordenação de meu
querido filho José quanto
me sinto feliz de ser Mãe
de um sacerdote, como agradecer
Deus tão grande favor, bem
sei que não mereço esta graça
mais vós minha bôa e terna
mãe nossa Senhora do Rosario
que sois a minha protetora
não olhas para as minhas
mizerias, e mizericordiosa para
comigo intercedendo junto a
a nosso divino filho por nos
eu agradeço o bôa Mãe
tão grande favor fazendo voto
O texto termina em “fazendo voto”, sem que uma continuação tenha sido localizada entre os documentos examinados até agora. Não sabemos se a anotação prosseguia em outra folha ou se permaneceu incompleta.
Treze anos entre duas páginas
Em 1936, Dona Zica havia escrito que entregava José à proteção de Maria Santíssima. Em 1949, registra sua gratidão e se dirige diretamente a Nossa Senhora do Rosário.
quanto me sinto feliz de ser Mãe
de um sacerdote
Mais do que informações genealógicas, essas páginas preservam algo muito mais raro: a maneira como Maria Escolástica compreendia acontecimentos de sua própria vida.
A ordenação de Padre José Nogueira
1963
Fé, família e Congonhas
Décadas depois da partida de José para Congonhas, outro pequeno objeto aparece entre os documentos preservados de Dona Zica: uma carteira de sócia da Rádio Congonhas, emitida em 1963 em nome de Maria de Freitas Nogueira, residente em Rio Espera. A identificação do documento como pertencente a Dona Zica foi confirmada pela família.
A carteira, isoladamente, não demonstra uma relação direta com a formação religiosa de José décadas antes. Sua presença no arquivo familiar, porém, é mais um vestígio da continuidade da religiosidade e da ligação com Congonhas na memória de Dona Zica.
Fé vivida em comunidade
1967
Caetano e Dona Zica
Quase cinquenta anos haviam transcorrido desde o casamento de 1918. A fotografia permite encontrar, já idosos, os dois jovens cujos nomes aparecem lado a lado no antigo livro paroquial.
1972
A morte de Caetano
Caetano Antunes Nogueira faleceu em 29 de julho de 1972, aos 74 anos. Seu santinho funerário foi preservado pela família.
Depois de mais de cinco décadas de casamento, Maria Escolástica tornou-se viúva.
1973
Dona Zica nos anos finais
Uma fotografia do ano seguinte mostra Dona Zica sentada à mesa. É uma imagem simples, doméstica, sem cerimônia — e talvez por isso uma das mais significativas do conjunto.
Os primeiros documentos desta página apresentam Maria Escolástica de Freitas como nome em um registro civil. Nesta fotografia encontramos Dona Zica, como era conhecida pela família.
Um documento do cotidiano
Em 1973, seu nome aparece também em uma nota promissória no valor de Cr$ 500,00, pagável a Maria Escolástica de Freitas Nogueira.
c. 1975
Dona Zica em movimento
A memória familiar preservou ainda algo particularmente raro. Além de registros, escritos e fotografias, existe um pequeno trecho de filme doméstico mostrando Dona Zica.
O filme possui poucos segundos, mas sua importância não está na duração. Mais de sete décadas depois do registro de seu nascimento, podemos não apenas ler sua letra e observar seus retratos: podemos vê-la em movimento.
Por alguns segundos, o arquivo deixa de ser apenas papel.
Uma família preservada através das gerações
A história de Dona Zica cruza diferentes ramos familiares. Pelo casamento com Caetano, liga-se aos Nogueira, Dias Lopes e Rodrigues de Miranda. Por sua própria origem, aos Freitas e Ribeiro, entre outros ramos identificados nos documentos.
Esposo: Caetano Antunes Nogueira
Sogro: José Dias Nogueira
Filho: Padre José Nogueira
Pais: Antônio Luis de Freitas e Anna Ribeiro de Freitas
A identificação completa das relações com a família Rodrigues de Miranda está sendo revisada à luz dos registros históricos, inclusive diante de variações de nomes encontradas nas fontes.
O que estes documentos revelam
Mais do que nomes e datas
Uma pesquisa genealógica tradicional poderia resumir Maria Escolástica em poucas linhas: nasceu em 1899; era filha de Antônio e Anna; casou-se com Caetano em 1918; formou uma família e viveu em Rio Espera.
Tudo isso é importante, mas não é suficiente para explicar quem foi Dona Zica.
Os documentos familiares acrescentam dimensões que uma certidão não registra. Sabemos como escrevia. Conhecemos algo de sua religiosidade. Podemos ler uma oração pelos filhos e pelo esposo. Conhecemos a esperança depositada no filho que partia para a formação religiosa e a alegria que decidiu registrar treze anos depois, quando José se tornou sacerdote.
Uma mulher que deixou sua própria voz
Nas pesquisas genealógicas, mulheres de gerações anteriores aparecem frequentemente por intermédio de outras pessoas: filha de alguém, esposa de alguém, mãe de alguém.
Maria Escolástica também aparece assim nos registros oficiais. Mas, neste caso, sobreviveram documentos nos quais ela própria fala.
Não conhecemos seu pensamento inteiro, nem devemos tentar reconstruí-lo a partir de duas páginas. O que temos é mais simples e, justamente por isso, mais precioso: algumas palavras que ela decidiu escrever.
eu entrego para a minha Mãe Maria Santissima...
e, treze anos depois:
quanto me sinto feliz de ser Mãe
de um sacerdote
Entre essas duas frases existe uma parte da história de uma família de Rio Espera.
Preservação documental
Os documentos, fotografias e filmes apresentados nesta página foram preservados no arquivo familiar dos descendentes de Maria Escolástica de Freitas Nogueira. O conjunto reúne registros civis e paroquiais, manuscritos, fotografias, objetos impressos, documentos do cotidiano e filme doméstico.
Parte desse material atravessou diferentes formas de reprodução: fotografias de documentos, digitalizações, cópias usadas em versões antigas do site e arquivos posteriormente recuperados de acervos digitais. Sempre que possível, o Portal procura preservar separadamente o arquivo original e a versão preparada para leitura na web.
Fontes documentais
Arquivo familiar de Maria Escolástica de Freitas Nogueira
- Registro de casamento de Antônio Luiz de Freitas Sobrinho e Anna Ribeiro da Natividade, 1882.
- Registro de nascimento de Maria Escolástica de Freitas, Ouro Preto, 1899.
- Assento paroquial de casamento de Caetano Antunes Nogueira e Maria Escolástica de Freitas, Rio Espera, 18 de setembro de 1918.
- Anotação manuscrita de Maria Escolástica de Freitas Nogueira, 20 de janeiro de 1936.
- Fotografia da família de Freitas Nogueira, identificada como 1941.
- Fotografia familiar identificada como viagem a Congonhas, 1947.
- Anotação manuscrita de Maria Escolástica de Freitas Nogueira, 2 de fevereiro de 1949.
- Fotografias familiares relacionadas à ordenação de Padre José Nogueira, 1949.
- Carteira de sócia da Rádio Congonhas, Maria de Freitas Nogueira, 1963.
- Fotografia de Caetano Antunes Nogueira e Dona Zica, identificada como 1967.
- Santinho funerário de Caetano Antunes Nogueira, 1972.
- Fotografia e nota promissória relacionadas a Dona Zica, 1973.
- Filme doméstico de Dona Zica, aproximadamente 1975.
Nota sobre as transcrições
Os manuscritos de 1936 e 1949 foram transcritos diretamente das reproduções digitais preservadas no arquivo familiar. Não foram corrigidos automaticamente erros ortográficos, construções antigas ou formas particulares da escrita de Dona Zica. Trechos ilegíveis ou cuja interpretação não pôde ser estabelecida com segurança foram indicados entre colchetes.
Na escrita azul da folha de 1936, algumas leituras permanecem provisórias. Elas poderão ser revistas caso seja localizada uma reprodução de melhor qualidade ou outra página do mesmo manuscrito.
26 de setembro de 2026 — primeira reconstrução documental ampliada, com incorporação de manuscritos, fotografias, documentos familiares e filme doméstico.