|
Quando
éramos reis
**
foto: time no compo do azilo - ano 1965
* Ricardo Miranda
Lá em Rio Espera, jacaré não
é nome de bicho. Era nome de Gente. Wanderlúcio
era apenas o apelido, o nome: Jacaré. Era jogador de
futebol e nas horas de folga (que eram muitas) era motorista
e namorador. Exímio namorador! Certa vez um velho ponderou:
o Jacaré dirige os carros e os corações.
Dirigia mais. Dirigia os sonhos das crianças.
O Jacaré foi meu primeiro ídolo!
Os meninos de hoje não devem fazer mais isso, mas lá
em Rio Espera a gente fazia. Lá, a partida de futebol
- a "pelada" - não começava com o
apito do juiz, era com o grito. O grito dos outros meninos
chamando para jogar bola. Éramos todos craques. O caminho
até o campo era o momento de escolher quem seria quem
quando a bola rolasse. "Eu sou Toninho Cerezo",
gritava um. "Só jogo se for o Balu do Cruzeiro",
exigia o outro. E assim, a melhor seleção de
Minas entrava em campo, mas precisamente, no Campo do Asilo.
Um dia tomei uma decisão: não queria mais ser
o tão cobiçado Tostão, passaria a ser
o Jacaré. Isto mesmo, decidi prestigiar um jogador
da nossa terra. Minha atitude contagiou os outros meninos
e, em pouco tempo, os jogadores do famoso time do Ginásio
eram ídolos da meninada. E acompanhávamos aqueles
nossos ídolos em todos os jogos, defendendo-os a unhas
e dentes.
E quando voltávamos a campo era aquela zoeira. Cada
qual era seu próprio narrador no melhor estilo da Rádio
Itatiaia. "Lá vai Jacaré com a bola dominada,
passa por um, por dois, carrega, levanta a cabeça e
chuta: na traaavee!". Era bárbaro! Quando alguém
se machucava, e alguém se machucava todo dia, até
o som das sirenes das ambulâncias era improvisado. Invariavelmente,
voltávamos para casa roucos e felizes.
Nunca vou me esquecer do dia que o Jacaré pulou com
os dois pés nas costas do juiz. Não havia dúvida
de que nosso time estava sendo lesado pela arbitragem. Os
meninos já haviam invocado o nome da mãe do
árbitro várias vezes. A coisa estava feia mesmo.
Então, ele, o juiz, marcou um pênalti que nunca
existiu. Foi a gota d'água! E do meio do tumulto surgiu
o Jacaré correndo em direção ao tal árbitro.
Como nos filmes, ele pulou lançando os dois pés
contra o coitado que já caiu desacordado. Foi um "Deus
nos acuda".
Depois daquele dia, em toda "pelada" ficávamos
horas a fio imitando o pulo do Jacaré. Alguns com mais
perfeição, outros com menos. Ríamos do
juiz e vangloriávamos o nosso ídolo. Pensávamos
que um dia teríamos coragem para fazer uma coisa daquela.
Os mais velhos diziam que ele era encrenqueiro. Ouvíamos
os mais velhos, mas desejávamos aquela ousadia.
E teve um dia que o Jacaré morreu. Foi num acidente
de carro. Estava indo para Belo Horizonte e nunca mais voltou.
Algum adulto até comentou que a tragédia era
a mesma que acometeu um tal James Dean. A nossa turma da "pelada"
foi ao enterro. Cabisbaixos e melancólicos, acompanhamos
todo o funeral. Para maioria foi a primeira grande perda da
vida. Ninguém falou nada, vai ver as palavras estavam
segurando as lágrimas.
No dia seguinte, voltamos ao campo. Era dia de "pelada".
A tristeza era grande e se queria perene. Pensei em até
parar de jogar futebol. E quando a bola rolou, descobrimos
que éramos nós que jogávamos. Não
havia mais ídolos. Não havia mais Jacaré.
Não havia mais graça. E foi então que
tudo aconteceu. A ressurreição. Em cada toque,
em cada jogada, em cada gesto, em cada insinuação,
lá estava o Jacaré. Como num feitiço,
começamos a mudar. Aos poucos. Um olhar, uma palavra,
um grito e, antes de terminar o jogo, estávamos todos
rindo. Nosso ídolo havia voltado! E lançaram
a bola em minha direção. Dominei, driblei e
fiz o gol. Um golaaaçoo. Corri em direção
a lateral do campo, como ele sempre fazia, e, olhando para
o céu como quem diz "é pra você Jacaré",
sorri na mais pura felicidade de menino de Rio Espera.
*
Ricardo Alexandre Nogueira Miranda é jornalista.
|