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Por: Ana Maria Nogueira de Oliveira*
Sabe-se que algumas das obras de Aleijadinho tem
autoria comprovada através de documentos: recibos e livros de despesas
das irmandades de Ouro Preto e São João del Rei, por exemplo. Entretanto,
há obras que, embora tenham atribuição de autoria por estudos de pesquisa
de especialistas, não foram autenticadas por nenhum documento que
pudesse endossar essas conclusões.
Em Rio Espera, desde tempos remotos que não posso precisar, há uma
tradição oral na qual diz-se que Antônio Francisco Lisboa esteve por
lá durante um período, quando esculpiu a imagem de Bom Jesus da Paciência,do
Espírito Santo e de Nossa Senhora do Rosário. O motivo, segundo o
povo, seria se ausentar da capital no momento de efervescência política
motivado pelo levante da Inconfidência Mineira. Porém, algumas pessoas
moradoras do local dizem que a motivação real seria a grande quantidade
de madeiras de boa qualidade.
Desde 1951, entretanto, ficou comprovado que não se tratava somente
de boato. Há uma publicação do DPHAN (atualmente IPHAN) São Francisco
de Assis de Ouro Preto, crônica narrada pelos documentos da ordem,
por Cônego Raimundo Trindade. Número 17, 1951, que diz à página 378:
Ao que informam alguns recibos do Aleijadinho, principalmente os de 29 de janeiro e 2 de outubro de 1792, esse retábulo foi trabalhado em parte no antigo povoado, hoje cidade, do Rio Espera. Transportado para Vila Rica no ano mencionado, dois anos depois em 1794, estava concluído e assentado.
Na publicação citada há a transcrição dos documentos, onde o Aleijadinho assina o recibo e coloca a localidade: Arraial Espera. Esses documentos dissipam todas as dúvidas. Ele esteve sim em Rio Espera e talvez mais de uma vez, digo talvez mais de uma vez porque o último recibo da escultura do retábulo da igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto é de 1792, já a data provável da imagem de Nossa Senhora da piedade é de 1771 a1780 segundo consta em O Aleijadinho uma síntese Histórica, trabalho elaborado por Márcio Jardim. Segundo ele, os trabalhos do artista são divididos em cinco fases: Mocidade, Maturidade inicial, Maturidade média, Maturidade plena e Máxima. A imagem de Nossa Senhora da Piedade de Rio Espera seria , segundo Jardim, da terceira fase compreendida entre 1771 a1780.
“Num dia de Corpus christi, descobrimos (ver nota169), por indicação do historiador Pe. José Vicente Cézar, esta comovedora Pietá , feita pelo Aleijadinho para o lugar ao qual voltaria cerca de 15-20 anos depois, para ali esculpir as obras da capela-mor da igreja de São Francisco de Assis de Vila Rica.
E continua
A cerca de 8 km de Rio Espera, na estrada de Lamim, no lugar denominado Pau Grande, encontra-se a Fazenda da Boa Esperança, com farta mina de pedra-sabão, ainda em uso. Na fazenda, para cuja ermida o Aleijadinho teria feito três imagens- Bom Jesus da Paciência, Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário-,hospedara-se o artista durante a esculturação desta Pietá e par lá voltara, buscando retiro, já sabedor do isolamento do local e de suas minas de pedra-sabão (170).
Considerando todos esses dados ainda ficam algumas certezas e muitas dúvidas a serem sanadas. A certeza de que ele viveu um período em Rio Espera e de que ele conhecia bem o lugar. Sabia que encontraria material de boa qualidade para trabalhar no retábulo. Por outro lado, as perguntas são muitas e é um campo para futuras pesquisas que talvez possam lançar um pouco de luz no mistério: Por que Aleijadinho teria preferido esculpir o retábulo da igreja de são Francisco a 80 Km de Ouro Preto e posteriormente transportá-lo no lombo de burros, conforme pode ser comprovado através dos recibos das despesas? Se a imagem de Nossa Senhora da Piedade de Rio Espera é realmente do período ( 1771-1780) ele a esculpiu em Rio Espera ? Então teria vivido lá antes de 1790 ?.
BIBLIOGRAFIA
TRINDADE, Cônego Agostinho. São Francisco de Assis de Ouro
Preto crônica narrada pelos documentos da ordem. Rio de Janeiro:
DFHAN,1951.
JARDIM, Márcio. O Aleijadinho uma síntese histórica.
Belo Horizonte: Stellarum,1995.
*Ana Maria, nasceu em Rio Espera, é graduada em Letras pela Faculdade de Letras da UFMG e pos-graduada.